Cesáreas quase dobram pelo mundo: Brasil é um dos líderes do ranking

Se 12% dos partos do planeta eram cesarianas em 2000, em 2015 elas representaram 21% dos nascimentos, taxa que chegou a quase 60% em alguns lugares, incluindo o Brasil. O crescimento foi revelado recentemente em estudo publicado no periódico The Lancet, conduzido por pesquisadores de instituições do mundo todo, que avaliou dados de 169 países.

O ideal, segundo a OMS (Organização Mundial de Saúde), é que o índice de cesáreas se mantenha entre 10 e 15%, bem abaixo do valor encontrado pelo estudo. O Brasil divide com o Egito o segundo lugar do ranking de nações avaliadas na pesquisa. Aqui, 55,5% dos bebês chegam ao mundo por meio da cesariana.

A cirurgia salva vidas quando o parto natural não pode ser realizado. Mas, quando é feita sem indicação, ela representa um risco maior de complicações para mãe e bebê. Tanto que, nos últimos anos, ações de incentivo ao parto normal ganharam força na medida em que seus benefícios ficaram mais evidentes. Entre eles, uma perspectiva de vida mais saudável para o bebê e redução da mortalidade materna.

Mas a tendência de crescimento se manteve mesmo assim. E são vários os motivos por trás da alta.

Por que tanta cesárea?

Há uma prevalência ligeiramente maior de prematuridade, que é uma das situações em que a cesárea pode ser solicitada, no Brasil. Mas, mesmo assim, a conclusão do grupo, que incluiu estudiosos daqui, é de que a maioria das aplicações é feita sem real necessidade médica.

Isso ocorre em parte por conta do estigma de que o parto normal é mais doloroso, envolve cortes vaginais e é mais difícil do que a cesárea. Tanto que o estudo publicado no The Lancet aponta que a maioria das mulheres acha que a cirurgia é a opção mais segura para ela e o bebê. Ao longo do tempo, a disseminação dessa ideia fez com que a maioria dos processos contra obstetras por erros médicos nos Estados Unidos viesse após partos naturais- – outra constatação dos pesquisadores.

Parece também haver um viés econômico na história, uma vez que o parto natural é consideravelmente mais demorado e imprevisível. Logo, aponta o trabalho, profissionais e instituições de saúde poderiam privilegiar a cesárea por incentivo logístico e financeiro. Na rede particular de saúde do Brasil, mais de 80% dos partos são cirúrgicos – índice que fez o Ministério da Saúde anunciar em 2016 regras que dificultam a realização do procedimento sem justificativa médica.

Como reverter esse jogo

Recentemente, a OMS lançou uma nova recomendação para reforçar a importância de reduzir a cesariana aos casos em que ela é de fato a melhor alternativa. No documento, a entidade sugere intervenções educacionais para mães e médicos, auditorias para cesarianas, requisitar uma segunda opinião para indicação quando for possível e outras ações que promovam uma tomada de decisão consciente sobre o tema.

Além de alertar população e profissionais sobre os benefícios do nascimento natural e criar políticas públicas e privadas que o incentivem, é preciso também proporcionar uma melhor experiência de parto para as mulheres. Infelizmente, o desrespeito e a violência ainda são queixas recorrentes entre as parturientes brasileiras.

O parto humanizado é uma das principais apostas para resolver este quadro. Em fevereiro deste ano, a OMS divulgou medidas para incentivar o parto normal e diminuir a crescente “medicalização” do processo, como o uso de hormônios para acelerar o trabalho de parto e outras intervenções.

Entre as recomendações, o uso de estratégias que não sejam remédios para aliviar a dor, a liberação para comer durante o trabalho de parto e o poder para a mulher assumir a posição que quiser para dar à luz. Vale lembrar que é possível fazer um parto humanizado e com liberdade de escolha mesmo se ele for uma cesariana. O importante é respeitar a vontade da mãe e as recomendações médicas de cada caso.

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