Relato: Eu Sofri Violência Obstétrica

Eu tinha 23 anos. Estava na minha segunda gestação. Era um período conturbado. Eu já tinha um filho e ele ainda era um bebê quando engravidei novamente. Engordei muito. Alimentava-me mal e tinha que cuidar de uma criança, uma casa, um marido. Não me cuidei. Engordei 40 kg. Claro que com isso o bebê ficou enorme. Também tive complicações como diabete gestacional. Quando completei 41 semanas de gestação minha médica marcou a cesariana para a semana seguinte. A criança estava sentada.

No dia que seria internada minha bolsa se rompeu e não pude ir ao hospital onde iriam realizar a cirurgia. Fui ao mais próximo da minha residência, ao Hospital de Samambaia/DF. Ali começava meu calvário. Ainda choro quando lembro. Cheguei ao pronto socorro, fizeram o toque, e disseram: “Oito centímetros. O bebê irá nascer”. Foi quando falei para a obstetra de plantão que além dela estar muito grande, não estava encaixada, havia virado, segundo uma ecografia do dia anterior, mas não encaixou. Ela respondeu-me rispidamente: “A médica aqui sou eu! Agora faz sua parte. Será parto normal!”

Passados uns 40 minutos a criança não nascia. Puseram um soro em minha veia. Comecei a ter contrações. Tive vontade de ir ao banheiro. Foi então que puseram um gel no meu ânus e comecei a defecar, sem controle. As dores aumentaram e elas gritavam comigo: “Pare de chorar, na hora de fazer tu não chorou! Põe força, senão seu neném vai morrer”.

Fui para o segundo e terceiro soro, nisso já haviam se passado quatro horas.

Sofrimento, medo, angústia, vergonha. Eu estava sozinha. Não deixaram o pai da minha filha entrar. Foi então que chegou um homem e o ouvi berrar: “Aonde vocês estavam com a cabeça? Vamos manobrar ou morrem as duas!”. Eu não entendi. Levaram-me até a sala de parto e um enfermeiro, de mais ou menos 1,70 cm e uns 80 kg, subiu na maca e começou a empurrar minha barriga. Eu desmaiei! A criança nasceu… Ninguém veio me dizer o que estava acontecendo. Eu sangrava aos baldes. Quando vi minha filha fiquei muito nervosa. Ela estava toda machucada. Nasceu com 4,3 kg, 53 centímetros.

Eu sentia muita dor. Fui rasgada. Minha vagina uniu-se ao ânus – levei mais de 27 pontos ali. Na época eu era desinformada, alheia ao meus direitos. Eles tornaram um dia tão importante pra mim num filme de terror. Passei um mês sangrando. A cicatriz do corpo fechou-se, mas a da alma será eterna.

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